sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Arquitetura, grandes obras, eventos e lucro

Tá tudo dominado, mas ainda tem gente em Minas pensando. "Arquitetura neutra não existe", diz a arquiteta e professora da UFMG Natacha Rena. A iniciativa privada investe em locais nobres, onde já existe infraestrutura, e para isso desaloja os mais pobres, mandando-os para mais longe. Na periferia, só constrói se o Estado bancar. Boa entrevista.

Do Portal Minas Livre.
"Os pobres não vão lucrar com a Copa"
Thaíne Belissa
Segundo a arquiteta e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Natacha Rena gentrificação é a exclusão de pessoas para valorização de uma área da cidade. Uma ação cruel e muito polêmica que vem acontecendo nas áreas centrais, nas praças, nos parques e tem se intensificado com os preparativos para Copa. Envolvida com as questões políticas da arquitetura, Natacha Rena já desenvolveu vários projetos sociais em Minas Gerais, levando seu conhecimento para além das questões técnicas e estéticas e focando na função social da arquitetura. Em entrevista ao Minas Livre, ela fala sobre o processo de gentrificação em Belo Horizonte, sobre os preparativos para a Copa e critica a parceria público-privada, que para ela é um "sintoma da falência do Estado".

ML: O que é o processo de gentrificação?
NR: Isso já aconteceu e continua acontecendo no mundo inteiro. O mercado começa a detectar que a cidade cresce rapidamente e, ou ele vai ficar investindo cada vez mais à margem, ou ele começa a investir nos centros das cidades. Isso porque essas regiões são degradadas, mas têm transporte, fácil acesso e podem ser valorizadas se ficarem limpinhas, cheias praça, câmaras, policiamento e lojas para turistas. Então, o mercado e o poder público, a portas fechadas – a gente não sabe exatamente como isso acontece – sentam na mesa e dizem: "nós do poder público vamos melhorar a região do centro, mas, antes disso, você senhor do mercado vai lá e compra aquele apartamentinho do seu Zé do lado da rodoviária, porque é muito barato, uns R$ 10 mil. Depois que eu colocar um museu lá, ele vai passar a custar R$ 200 mil". Então alguns investidores compram esses terrenos na região degradada. Aí o Estado lança um grande projeto. O cara que vendeu o apartamento dele por R$ 10 mil comprou um quarto em Ribeirão das Neves, a duas horas de ônibus de onde ele trabalhava. Então esse é o processo: a cidade se valoriza e as pessoas são expulsas.

ML: Dentro desse contexto, como você avalia a parceria público-privada?
NR: Metade do recurso do Estado é pra pagar dívida com bancos nacionais e internacionais. De cara a gente já tem um Estado com seu orçamento comprometido com o mercado: ele está quebrado e não tem dinheiro pra fazer as melhorias urbanas que ele precisa fazer. Aí o Estado diz: "eu não tenho dinheiro, não tenho gestão, o funcionário público é lento, então vamos fazer uma parceria público-privada que vai me garantir eficiência". Esse é o discurso para as pessoas comuns. Mas isso só significa que o mercado vai tomar frente daquela ação e aí o Estado, na hora que alguém vem cobrar alguma coisa como o corte das árvores no Mineirão, ele vai dizer "isso foi uma parceria público-privada e a gente precisa disso para atrair turistas para Belo Horizonte, isso vai gerar dinheiro pra todo mundo". Mas é claro que isso não é verdade: o seu Zezinho que vendia pipoca, o tropeiro do Mineirão, o fulano que tomava conta do carro no estacionamento, essas pessoas pobres não vão lucrar com a vinda da Copa.

ML: De que forma que essa expulsão dos pobres acontece nas praças e parques?NR: Na melhoria de uma praça, por exemplo, que antes era escura, muito arborizada e aí a gente da classe média alta que vai andar nessa praça tem medo de ser assaltado. Mas ali mora um monte de gente que, pra nós, é mais uma categoria de sujeira urbana do que pessoas. Então, na hora que você passa o trator, coloca uma calçada, tira os bancos, coloca câmara, tira as árvores e faz uma praça, ela passa a ser só um lugar mais fácil de ser controlado pela cidade e menos usado pelas pessoas.

ML: Ao mesmo tempo em que o Estado não pode expulsar as pessoas, ele precisa cuidar do aspecto visual da cidade. Como resolver esse impasse?
NR: Existe essa ideia de o lugar que é desenvolvido é limpo, é organizado, a parede é pintada de branco. Então a favela na cidade denigre a imagem urbana. Mas, se a gente tivesse outro olhar pra esses lugares de valorização de uma inteligência coletiva, de um jeito mais criativo a gente ia ver o tanto que a favela é linda.

ML: Você acredita que a Copa intensifica esse processo de expulsão?
NR: Toda vez que se tenta preparar uma cidade para receber turistas para um grande evento, têm-se um leque de discursos. Primeiro você precisa de segurança, então você precisa mesmo é da sensação de segurança. Não estamos vendo projetos sociais para a melhoria das condições de vida do morador de rua, a gente está vendo uma limpeza urbana. O que acontece nesses grandes eventos é empurrar para debaixo do tapete, para as margens da cidade, causando não a segurança, mas uma sensação de segurança.
A íntegra.

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