segunda-feira, 10 de março de 2014

A última vitória de Brizola

Eleito presidente em 2002, Lula deu graças a Deus por isso não ter acontecido em 1989.
Se Lula pensa assim, por que não Brizola passar ao segundo turno?
Teria sido uma justiça histórica.
Brizola é o anti-FHC: quanto mais o tempo passa, maior ele fica.
Que governante brasileiro se preocupou com a educação de fato senão ele, quando, inspirado por Darcy Ribeiro, criou o Ciep?
Grande parte da história, ou da visão que temos da história, se deve à propaganda, incluindo aí o que nos acostumamos a chamar de "grande imprensa".
Se tirarmos a Globo etc., o que fica de FHC? Se tirarmos a "grande" imprensa mineira, o que sobra do Aécio?
A ditadura que está prestes a completar 50 anos foi um desastre para o país, mas foi um sucesso político maquiavélico. Sua obra perdura até hoje.
Algumas coisas definiram a continuação da obra da ditadura -- uma delas foi a anistia, que impediu a punição dos criminosos do regime. Outra foi a entrega do PTB a uma amiga do governo.
Alguém duvida de que tendo Brizola como líder o PTB seria muito mais forte do que foi o PDT? (O próprio PTB voltou desmoralizado, como partido de direita.) 
E o PT também seria diferente.
Com o PTB nas mãos, dificilmente Brizola seria ultrapassado por Lula em 1989 e teria assumido a liderança da esquerda.
A vitória de Brizola na primeira eleição presidencial direta depois da ditadura recolocaria a história brasileira nos trilhos. Afinal, foi do PTB que o golpe tomou o governo, em 1964.
Era isso que a ditadura (leia-se general Golbery do Couto e Silva, o ideólogo da "abertura") não queria.
A disputa entre Collor e Lula no segundo turno mostrou o Brasil que viria depois da ditadura: o velho com cara de novo e o novo que rejeita o passado.
Num caso e noutro a ditadura continua viva.
A história é feita também de desvios e variantes.

Do Diário do Centro do Mundo.
Meu coração bateu mais rápido quando soube que gritaram Brizola na avenida
Paulo Nogueira

Fiquei tocado ao saber que seu nome foi gritado na avenida no Carnaval do Rio por pessoas inconformadas com a bajulação abjeta que a Beija Flor fez em seu desfile a Boni e, por extensão, à Globo.
Brizola venceu, mais uma vez.
Era um brasileiro íntegro, um político visionário, um apóstolo da justiça social, e é uma imensa pena que não tenha, com a redemocratização, chegado à presidência.
Buscaram prejudicá-lo o tempo todo. A sigla que ele simbolizava como ninguém, o PTB, foi entregue a uma descendente inexpressiva de Vargas, e ele teve que inventar o PDT para continuar na vida política.
Votei nele em 1989, e foi para mim o fim da era da inocência política. Fiquei arrasado quando, por escassa margem de votos, ele não passou para o segundo turno.
Nunca mais senti o mesmo quando algum candidato em que votei foi batido.
Brizola disputou a segunda colocação, voto a voto, com Lula.
A vitória apertada de Lula como que selou o nome de quem representaria, dali por diante, a esquerda nacional.
Num exercício tolo, às vezes me pergunto o que teria ocorrido se Brizola tivesse ido para o segundo turno, em vez de Lula.
A Globo teria coragem de favorecer Collor e meter medo no oponente, no debate decisivo, com uma mala em que supostamente estavam denúncias?
A mala – com denúncias imaginárias – foi vital para que Lula tivesse um desempenho sofrível no debate. Cada vez que Collor se aproximava dela, Lula tremia.
Brizola, presumivelmente, teria denunciado a mala a todos os brasileiros em pleno debate, caso o mesmo golpe baixo fosse tentado contra ele.
A mim parece claro que, para o Brasil, a vitória de Brizola teria sido melhor que a de Lula em 1989.
Brizola teria enfrentado a Globo, para começo de conversa. Não por não gostar das novelas, ou da voz de Cid Moreira, ou das piadas de Faustão, mas por compreender que a Globo é a Bastilha brasileira, o símbolo da desigualdade e dos privilégios.
Enquanto a Globo não for desmontada pouca coisa se fará no avanço social brasileiro, porque a Globo é a guardiã dos privilégios com o esquema de controle que montou para monitorar a Justiça e o mundo político.
Lula fugiu da luta, e isso ficou claro quando compareceu ao enterro de Roberto Marinho – o homem da mala do debate com Collor – e fez ali uma eulogia vergonhosa. Completou o serviço decretando luto oficial de três dias.
É uma pena que Lula seja pouco cobrado por um gesto pusilânime e oportunista que atrasou tanto o combate à desigualdade social.
Fosse cobrado, teria talvez caído em si, e a sociedade quem sabe ganhasse o prêmio de uma regulamentação de mídia que impeça uma só empresa de ter tanto poder em tantos meios.(Até o México enquadrou a Televisa, a Globo local.)
Voltei no tempo ao ler que gritaram o nome de Brizola na avenida, em repúdio ao endeusamento da Globo.
A íntegra.

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