segunda-feira, 10 de março de 2014

Como jornalistas insuspeitos depois arrependidos apoiaram o golpe de 64

Isso sim é uma boa história, bom jornalismo, embora mera recapitulação, pesquisa. Nem por isso deixa de ser uma bela reportagem.
O melhor exemplo do modelo é o antológico "O julgamento de Sócrates", do jornalista americano I.F. Stone.
Alguns nomes na lista não deixam de surpreender, especialmente Drummond e Callado. Eu ignorava. Outros eu sabia.
A história vai sendo reescrita -- quem viveu a época e lia jornais sabia, depois é que as coisas foram mudando e o que fica para a história é o principal.
De fato, não é tão estranho como parece.
O golpe de 64 foi um golpe contra Jango, contra o PTB, contra o PCB, contra o getulismo, contra os trabalhadores, com apoio da classe média.
O segundo golpe, o de 68 é que atingiu a classe média.
Entre 64 e 68, a direita golpista (militares e civis) que assumiu o poder perdeu o apoio que tinha em 64.
As organizações de trabalhadores foram destruídas em 64, mas as classes médias continuaram livres, mobilizadas e cada vez mais radicalizadas, não à toa, mas porque tinham apoiado o golpe. Afinal, quem é que foi para a rua na "Marcha da Família com Deus pela Liberdade" (que agora ensaia uma ridícula reedição)?
Assim como antes de 64, os trabalhadores se radicalizaram por reformas e estavam confiantes no governo Jango, as classes médias passaram para a oposição entre 64 e 68 e achavam mesmo iam derrubar a ditadura.
Até o segundo golpe, o do AI-5.
Os artistas são o maior símbolo disso, basta pensar nos festivais de música.
A massa era formada principalmente por estudantes, jovens como Dilma, José Dirceu, Franklin Martins etc.
A grande liderança da época foi o universitário Vladimir Palmeira -- filho de fazendeiro.
O grande representante dos intelectuais foi Hélio Pelegrino -- médico.
Isso também ajuda a entender o Brasil de hoje, do governo petista.
Como escrevi em outro post (A última vitória de Brizola), a ditadura se empenhou em impedir a volta do PTB e que Brizola chegasse à presidência, tomando-lhe a legenda.
O PT fez a outra parte, que foi romper com o passado e recomeçar a história com um novo partido trabalhista.
O PT, como se sabe, é, na origem, Lula (e os "novos sindicalistas") mais a geração de 68.
Quem vai ajudar a fundar o PT e constituir grande parte dos seus quadros dirigentes? Os estudantes de 68.
Basta olhar a fundação do PT, estão todos lá: Palmeira, Pelegrino, Dirceu.
Dilma, não, ela morou em Porto Alegre e entrou no PDT de Brizola. O que diz alguma coisa sobre dela.
Estão na fundação do PT todos que renegavam o PTB, Getúlio, Jango, Brizola, os que continuam até hoje e os que saíram -- como Gabeira etc.
Raríssimos foram os derrotados em 64 que entraram no PT.
Quem quiser entender o PT e o Brasil de hoje tem que entender isso.
Trabalhadores, sim.
Classe média, sim.
Mas "puros".
Trabalhadores que renegaram o PTB.
Classe média que renegou a luta armada.
A classe média costuma mudar de lado.
Ninguém deu maior exemplo disso do que Carlos Lacerda, o corvo, arauto do golpe e depois líder da "Frente Ampla", com Jango e JK.

Do blog Escrevinhador.
Juremir Machado revela jornalistas que participaram do Golpe 64 
Por Juremir Machado, no Facebook 

Estou com livro novo. Escrevi "1964 golpe midiático-civil-militar" para me divertir. Trabalhei como um cão, mas senti prazer. De que trata realmente meu livro? De que como jornalistas e escritores hoje cantados em prosa e verso apoiaram escancaradamente o golpe: Alberto Dines, Carlos Heitor Cony, Antônio Callado, Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende, Otto Maria Carpeaux, Rubem Braga e outros.
Alguns, como Cony, arrependeram-se ainda na primeira semana de abril. Outros só mudaram depois de 1968 e do AI-5. Alguns permaneceram fiéis ao regime. Os mais espertos, como Alberto Dines, reescreveram-se.
Como sempre em meus livros, apresento as provas. O caso mais impressionante de apoio ao golpismo foi o de Alberto Dines, diretor de redação, à época, do Jornal do Brasil. Dines, atualmente, dirige saite Observatório de Imprensa, de crítica de mídia. Jamais fez um bom mea-culpa.
O homem que agora posa de decano do jornalismo comprometido com a democracia era, em 1964, um golpista a serviço do pior do Brasil: "Só podíamos dedicar um único editorial contra cada ato ou falação de Goulart. No dia seguinte, já havia outros para atacar". 
Dines não pôde se conter: "Jango permitira que na vida brasileira se insuflassem tais ingredientes que, para extirpá-los, seriam necessários não mais o 'jeitinho'. Desta vez, teriam de ser empregadas a força e a violência". Alberto Dines apoiava a queda de Jango, ansiava pelos militares, tentava ajudá-los assustando cada vez mais a população.
Dou essa palhinha. Deixo o essencial para quem ler o livro, que poderia se chamar também origens ou consolidação da imprensa golpista.
A íntegra.

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