segunda-feira, 17 de março de 2014

Celton, super-herói dos belo-horizontinos

Ou o dia em que a PM prendeu Celton, o super-herói de Belo Horizonte. 

Avisto Celton na Avenida Cristóvão Colombo e como sempre paro para cumprimentá-lo. Faz tempo que não o vejo e digo a ele que está sumido. Ele me entrega um exemplar da revista que está vendendo, folheio-a e noto que é diferente, poucos desenhos, muito texto. Ele me explica: "É uma edição diferente, de indignação".

De fato este é o título da revista, que tem na capa um desenho do próprio Celton sentado na traseira de um camburão, com a porta aberta, cercado por seis policiais militares armados de fuzis, e a chamada: "Neste número, estou contando como um policial arrogante me humilhou publicamente e me prendeu, sem eu fazer nada".

A capa contém ainda o nome da revista, seu número -- 30 -- e o preço, R$ 3, além uma pequena fotografia da imagem conhecida dos belo-horizontinos e por milhões de brasileiros e que eu mesmo estou vendo agora: Celton, vestido com seu terno amarelo, gravata laranja e camisa preta, rosto sorridente, simpático, segurando na mão esquerda uma revista e na direita um grande cartaz amarelo no qual se lê, em letras pretas: "Leia Celton. Estou vendendo revistas em quadrinhos que eu mesmo fiz".

Pego três reais, pago a revista, ele me devolve cinquenta centavos, eu digo que lhe dei o valor certo, ele diz que são R$ 2,50, apesar do preço na capa da revista. Eu tinha interrompido uma conversa sua com outro homem, por isso me despeço e saio carregando a revista, dizendo que lerei com atenção, curioso sobre o tema.

Celton é o alterego de Lacarmélio Alfêo de Araújo. Lacarmélio desenha histórias em quadrinhos há mais de trinta anos e as vende nos sinais de trânsito em Belo Horizonte. Celton é seu super-heroi, um herói sem superpoderes, mas muito corajoso e bom de briga, um morador de Belo Horizonte, onde se passam suas aventuras.

Quantas cidades podem se orgulhar de ter um super-herói? Belo Horizonte pode, e ainda mais porque Lacarmélio ambienta seus quadrinhos em lugares reais, desenhados detalhadamente por meio de um processo de criação que o autor foi refinando ao longo dos anos, assim como refinou sua indumentária e seu estilo de venda. Como ele mesmo diz na revista atual, Lacarmélio anda com uma máquina fotográfica e fotografa as cenas, para reproduzi-las em desenhos.

Só o que se manteve igual nesses anos todo foi a paixão de Lacarmélio por seu trabalho. Essa paixão transformou o autor no próprio herói, pois é pela personagem e não por seu nome exótico que ele é chamado nas ruas.

Celton, hoje um homem de mais de cinquenta anos, que sustenta família produzindo e vendendo sua revista em quadrinhos, é um tipo popular de Belo Horizonte, essa figura que todas as cidades têm, mas que vai desaparecendo aos poucos, enquanto crescem e embrutecem. Recebeu título de cidadão honorário da capital e outros reconhecimentos públicos, faz palestras, inclusive para a PM, tornou-se conhecido nacionalmente ao aparecer em programas de televisão, como o do Jô Soares, virou livro e vídeo, está na Wikipédia. Mas herói mesmo só virou agora.

Celton Lacarmélio preserva a tradição dos tipos populares de Belo Horizonte e agora transformou-se também no seu super-herói de carne e osso, ao protagonizar uma aventura real, na qual, defendendo sua dignidade e sua cidadania, serve de exemplo para todos.

Talvez Lacarmélio não tenha consciência disso, mas na edição de nº 30 de Celton ele ganhou a dimensão de um Tolstoi brasileiro do século XXI. É preciso conhecer Celton e ler a revista para entender isso.

O relato longo do episódio feito por Lacarmélio tem a mesma simplicidade e erros de português que marcam a revista ao longo dos anos, uma espécie de arte primitiva na forma de quadrinhos. Afinal, como explica o autor, ele faz sozinho o que nas revistas americanas (e mesmo nos estúdios de brasileiros famosos como Maurício de Sousa e Ziraldo, acrescento eu) é feito por uma grande equipe de profissionais.

Esta edição no entanto contém também uma história pessoal transformada em arte, não pela qualidade do desenho e da narrativa, os quais, como já disse, são cada vez mais refinados, mas pelo processo de consciência vivido por Lacarmélio nos últimos três anos, pela lição que ele tirou do episódio e pelo exemplo que nos dá.

Três anos. Esta é a maior surpresa. Não se trata de um episódio recente. Cada nova revista do Celton demora a aparecer, porque, como disse, reproduzindo explicação do Lacarmélio, ele faz tudo sozinho e ainda organiza seu tempo para conseguir desenhar em uma parte do dia e vender os exemplares em outra parte, escolhendo pontos de engarrafamento do trânsito. Este nº 30 no entanto demorou muito mais tempo para ser publicado, embora tenha poucas ilustrações. A razão é que Lacarmélio digeriu a história longamente, depois do episódio que a originou, e só a publicou por julgar que não poderia se negar a isso. Nas suas palavras: "De que adianta eu escrever histórias de heróis corajosos se, na vida real, eu não tenho coragem para defender o meu próprio nome?".

Foram os desdobramentos do episódio, com efeitos permanentes sobre sua vida e dos seus familiares que levaram à publicação da revista. E foi por isso, foi assim que na sua 30ª revista em quadrinhos Lacarmélio se transformou em Celton e a arte encontrou a vida.

De fato, o criador superou a criatura. Não sendo um super-herói, Lacarmélio não é capaz de salvar ninguém, como Celton, mas pode tentar salvar-se a si mesmo, o que faz com sua arte. E dessa forma dá o exemplo para os demais cidadãos, seus leitores, belo-horizontinos, nós.

Para publicar sua nova revista, Celton Lacarmélio cercou-se de cuidados, ouviu conselhos, consultou advogados, recorreu à própria Polícia Militar. Reconstitui a história da corporação e a enche de elogios, especialmente os indivíduos policiais militares, que ele conhece e encontra diariamente nas ruas, enquanto vende suas revistas. Fala assim da "vida real", não de uma ficção distante da realidade ou de um impessoal texto acadêmico.

Lacarmélio Celton conhece bons policiais militares, gente comum, do povo. De fato, que belo-horizontino, que mineiro não tem um amigo ou parente policial militar? A PM, talvez mais do que outras polícias militares brasileiras, é uma instituição entranhada na história, na cultura e na sociedade de Minas Gerais.

Celton Lacarmélio trata o policial em questão como indivíduo, mas não cai na ingenuidade de considerá-lo caso isolado. Ao contrário, cita na revista outros casos de comportamento semelhante que configuram abuso de autoridade. Infelizmente, são muitos, cada vez mais numerosos, a ponto de marcar a imagem da corporação. Pior: há situações -- como a repressão a manifestações populares -- em que a própria PM, ou a parte especializada dela, tem a função de atuar com violência indiscriminada e arbitrária.

Este comportamento da PM ou de partes dela e de alguns dos seus integrantes é uma herança da ditadura, que Celton Lacarmélio faz questão de renegar, ao contrário de outros que hoje em dia andam defendendo sua volta.

Mas há também bons policiais, inclusive no comando, como exemplifica nosso herói, que presta uma utilidade pública ao difundir a existência e o papel fundamental da Corregedoria de Polícia, cujos integrantes surpreendem o público com sua atenção e atuação.

Nem todos os ofendidos e humilhados pela PM (como observa sabiamente Lacarmélio, um policial fardado não é um indivíduo, é toda a corporação) são famosos como Celton; certamente a Corregedoria percebeu a dimensão que o fato tomaria e tomou. Nem todos nós temos a coragem do super-herói belo-horizontino.

Como nas histórias em quadrinhos, há "na vida real" uma luta entre o "bem" e o "mal", entre os cidadãos investidos de poder -- poder econômico ou poder de Estado -- e os cidadãos comuns. A democracia é a prevalência dos cidadãos comuns sobre os cidadãos poderosos, pela simples razão, conhecida de todos e repetida há séculos, de que todo o poder vem do povo.

Cabe aos bons cidadãos lutar para que o bem prevaleça, como nas aventuras de Celton -- ou, seguindo o exemplo de Lacarmélio, "na vida real".

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