quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A tragédia chilena, há 40 anos

Série de reportagens do Sul 21 faz boa reconstituição do governo Allende. Entre os grupos que promoveram protestos preparando terreno para a deposição militar do presidente estava o dos médicos.

Do Sul 21.
Há 40 anos, mais de meio milhão de chilenos marcharam por Allende
Maurício Brum, especial para o Sul21

A noite de 4 de setembro de 1970 avançou barulhenta nas vizinhanças da Alameda Bernardo O'Higgins, antiga Alameda de las Delicias, a principal artéria de Santiago do Chile. Durante a manhã e a tarde, o país inteiro havia comparecido às urnas para aquelas que prometiam ser as eleições mais equilibradas da história republicana. Três candidatos disputavam voto a voto a preferência do eleitorado e, para os partidários do socialista Salvador Allende, o lugar de concentração para escutar as notícias vindas pelo rádio era em frente à Federação dos Estudantes da Universidade do Chile (Fech), um antigo casarão de frente para a Alameda e não muito distante do palácio de La Moneda.
O triunfo se confirmou poucos minutos depois da meia-noite. Allende havia arregimentado 36,6% dos eleitores, pouco menos de quarenta mil votos acima do conservador Jorge Alessandri (35,3%), com ambos deixando para trás o democrata cristão Radomiro Tomic (28,1%), que pertencia à corrente progressista do partido de situação, que agora seria obrigado a deixar o governo. A vitória, estreitíssima e longe da maioria absoluta, prenunciava as dificuldades que aguardavam o mandato da Unidade Popular – e nem mesmo o resultado era seguro, pois precisou ser confirmado pelo Congresso cinquenta dias depois, em sessão prevista pela Constituição para definir entre os dois mais votados.
Embora a tensão tenha se mantido até que os deputados e senadores fizessem sua reunião definitiva, havia nos bastidores um acordo de cavalheiros: Allende e Tomic apertaram as mãos e concordaram que, se derrotados, reconheceriam a vitória um do outro – e articulariam para que os congressistas de seus partidos votassem no adversário. Isso não impediu uma sucessão de violências entre o 4 de setembro das eleições e o 24 de outubro em que o Legislativo confirmou a vitória da UP – incluindo o assassinato do então comandante do Exército, René Schneider, pela ultradireita –, mas por fim a palavra fora cumprida e Allende teve o mandato garantido.
Exatos três anos depois, em 4 de setembro de 1973, restava muito pouco do otimismo daquela noite. A crise enfrentada pelo país havia vários meses parecia já incontornável. Nenhum dos ultimatos dados pelo governo às greves de caminhoneiros, médicos e comerciantes fora respeitado, a inflação continuava a crescer, e os atentados terroristas da extrema-direita continuavam se acumulando como notas corriqueiras nas páginas dos jornais.
Renán Fuentealba, ex-presidente do PDC, havia mandado um bilhete a Allende em que alertava: "Não confie em nada da democracia cristã. [...] O único problema de Aylwin consiste em como se desfazer de Allende o mais depressa e a um custo menor". Mas foi do próprio Radomiro Tomic a análise mais precisa do momento vivido pela política chilena, em artigo publicado no jornal La Nación no dia 29 de agosto:
"Seria injusto negar que a responsabilidade de alguns é maior que a de outros; mas, uns mais e outros menos, entre todos estamos empurrando a democracia chilena ao matadouro. Como nas tragédias do teatro grego, todos sabem o que vai ocorrer, todos dizem não querer que ocorra, mas cada um faz precisamente o necessário para que aconteça a desgraça que pretende evitar."
É pelo fato de o governo estar encurralado de tal forma que o 4 de setembro de 1973 se revestiu de uma transcendência fundamental. Naquele dia, festejando o terceiro aniversário do triunfo nas urnas, uma multidão saiu às ruas de Santiago com o objetivo de demonstrar que seu apoio à Unidade Popular não se abalava pela crise.
A íntegra.

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