terça-feira, 4 de junho de 2013

As eclusas de Tucuruí e os problemas das hidrelétricas

Uma boa reportagem para ser lida por aqueles que acreditam que a hidreletricidade é energia limpa e só tem vantagens.
Não é bem assim, e não só porque expulsa ribeirinhos e afeta terras indígenas. O impacto ambiental e social das hidrelétricas é imenso, construí-las exige pesar muita coisa e tomar medidas de grande alcance e custo.
Isso vai contra a lógica do capital, que tem pressa de ganhar dinheiro e não quer gastar com coisas que não dão lucro, como meio ambiente, populações locais, bem-estar social e os interesses das futuras gerações.
O Estado, nestas situações e decisões, não passa de um comitê gestor dos negócios do capital.
E justifica suas ações com aquelas belas palavras ideológicas: desenvolvimento e progresso. Como se o que é bom para o capital fosse bom para todos.
Na verdade, é o oposto: para que o capital lucre, é preciso que o restante da população pague.

Do blog A Vale que vale.
O bom combate pelas eclusas  
Por Lúcio Flávio Pinto
O sistema de transposição da barragem de Tucuruí foi concluído um quarto de século depois que a hidrelétrica começou a funcionar. Dois anos depois de serem construídas, porém, as eclusas de Tucuruí não foram suficientes para permitir a livre navegação entre Marabá e Belém, como se imaginava que aconteceria. Ainda é preciso limpar o Tocantins para que ele se torne uma verdadeira hidrovia. O investimento é quase do tamanho da eclusa. A Vale diz que vale a pena porque assim ela podia produzir aço em Carajás, ao invés de somente extrair minério de ferro. Mas nada faz para viabilizar essa iniciativa. O tempo passa sem que as promessas se concretizem. É uma longa história. Este artigo, de 2000, relata um dos seus momentos.

O então senador e presidente (por quase meio século) da Federação das Indústrias do Pará, Gabriel Hermes Filho, chegou a ameaçar que se a hidrelétrica de Tucuruí fosse inaugurada sem o restabelecimento da navegação no rio Tocantins, ele se colocaria debaixo da barragem, a jusante, como protesto. Presente na ocasião do compromisso, sugeri ao nobre senador (já falecido) que levasse um guarda-chuva para se proteger. Ele riu.
Talvez nós todos encarássemos com ceticismo a possibilidade de o 25º maior rio do planeta, com 2.200 quilômetros de extensão, ficar bloqueado pela monumental estrutura de concreto, no interior da qual imensas turbinas começariam a gerar energia no final de 1984. Mas nesse mesmo ano o então coordenador da presidência da Eletronorte, Armando Ribeiro Araújo, foi ao plenário da Assembleia Legislativa do Pará e disse, com todas as letras, que sua empresa não cumpriria o Código de Águas, de 1934.
O Tocantins ficaria mesmo sem o sistema de transposição complementar, necessário para vencer o desnível de 70 metros criado pela barragem de Tucuruí. Na casa das leis, um servidor público assumia a condição de transgressor da lei. Entrou e saiu sem receber voz de prisão, embora ela tivesse sido sugerida a um deputado, que a descartou, "porque criaria um escândalo".
Quando o projeto executivo da hidrelétrica foi aprovado, em 1976, isso era impossível: a Eletronorte era responsável tanto pela usina de energia quanto pelas eclusas. Nessa configuração, a transposição, representando 5% do custo da hidrelétrica, era um "detalhe".
A infraestrutura de apoio abocanhou 20% do que a obra custaria ao ser inaugurada. Mas a Eletronorte transferiu a eclusagem para os ombros da Portobrás, deixando menos onerados os seus próprios custos. A Portobrás desapareceu em meio ao ziguezague da privatização e do Estado mínimo. As eclusas de Tucuruí, destinadas a serem as maiores do mundo, ficaram no arquivo em banho-maria.
Mais de 15 anos depois que a hidrelétrica entrou em funcionamento, um novo capítulo dessa novela de transposição da barragem era vivido em 2000. Dois ministros foram ver o andamento das obras das eclusas, que era mínimo. Mesmo assim, (constatando) in situ que o projeto era prioritário, fizeram referência a recursos, anunciaram um novo cronograma e voltaram para Brasília.
Tudo como dantes no palácio (já que o quartel ficou fora de moda, ao menos temporariamente) de Abrantes? Certamente, não fora um detalhe: até 2004 a Companhia Vale do Rio Doce precisa definir uma nova fonte de energia para suas atividades produtivas, a principal delas sendo a metalurgia de alumínio, em Barcarena, que responde por 1,5% do consumo energético de todo o Brasil.
A íntegra.

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