quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A "nova esquerda" e os velhos comunistas

Não vejo grande importância no PPS, um partido menor na política brasileira, que, aparentemente, nunca chegará ao poder, pelo menos por conta própria, liderando uma coligação ou fazendo o presidente (Itamar foi do PPS como foi do Partido Liberal, por necessidade de ocasião), mas esses vinte anos são significativos. Afinal, o PPS é o antigo partidão, o PCB, o Partido Comunista, e é isso que lhe dá história: os comunistas foram a maior força política do século XX, fizeram a Revolução Russa de 1917 e, sob o comando de Stalin, impediram a revolução no resto do mundo, exceto na China e em Cuba. Nem bem acabou a União Soviética e a maioria do partidão apressou-se a se despir do rótulo incômodo. No texto abaixo, se autodenomina "nova esquerda". Nada menos apropriado -- primeiro, porque o PCB, como se pode constatar no discurso do seu eterno presidente Roberto Freire, continua com a mesma fala monótona e bolorenta; segundo porque, em duas décadas, não conseguiu apresentar uma proposta nova. Em vez disso, se tornou aliado da "nova" direita, formada pelo PSDB e pelo DEM (ex-PFL, ex-PDS, ex-Arena). Não é incrível que o antigo partidão tenha se unido ao partido da ditadura militar? E no entanto Freire não toca no assunto. Ele critica os "onze anos de petismo" -- num erro grosseiro de conta, porque são nove anos, não onze -- dizendo que o atual governo adotou a política neoliberal, mas se esquece de dizer que mais neoliberal ainda foi o governo FHC e que o PPS o apoiou ardorosamente. Se o PPS é a favor do "desenvolvimento", deveria apoiar os governos Lula e Dilma, porque neles é que tem havido desenvolvimento, enquanto os governos tucanos foram lamentáveis nessa matéria. No entanto, Freire exalta o "Plano Real" e finge que nada aconteceu nos governos "petistas". Uma cegueira típica do velho credo comunista do partidão, que repetia discursos prontos formulados em Moscou e ignorava a realidade em volta. É justamente essa confusão que torna o PPS ainda, vinte anos depois de mudar de nome, envergonhado do "comunismo", um partido deprimente, sem cara, sem personalidade. É de direita ou é de esquerda? Se é de direita, por que não se assume como tal? Por que não defende o capitalismo abertamente? Por que critica o neoliberalismo? Por que insiste em manter a palavra "socialista" no seu nome? O que é o socialismo para o PPS, que não aparece na sua prática nem no seu discurso? Quais são as "reformas estruturais" pelas quais o partido "luta"? Freire justifica a mudança de nome da legenda ("primeiramente nomeado Partido Comunista Brasileiro" -- como assim "primeiramente"? Durante 70 anos, pois o PCB foi fundado em 1922! Muito mais do que existe o PPS!) relacionando-a com a "falência dos paradigmas", mas não consegue apontar quais são os novos. Diz que quer "unir a esquerda democrática para mudar o País": estará o DEM incluído nela? Será que os tucanos -- que estão fazendo sua transição oficial para a "centro-direita" -- aceitam ser chamados de "esquerda"? E mudar para onde? Para o "socialismo" que está no seu nome? Será que seus aliados de direita vão acompanhá-lo? Enfim, não há bicho mais exótico no zoo político brasileiro do que os velhos comunistas envergonhados do seu nome de origem.

Do blog da deputada Luzia Ferreira.
Partido Popular Socialista comemora 20 anos de sua fundação
O Partido Popular Socialista completou 20 anos de fundação na quinta-feira (26/1/12). Primeiramente nomeado Partido Comunista Brasileiro (PCB), o PPS passou pela transição há exatos vinte anos, no Teatro Zácaro, em São Paulo, onde os delegados eleitos naquele que foi o último congresso do PCB aprovaram, por ampla maioria, a transformação do partido em PPS. Atual presidente do PPS de Minas Gerais, a deputada estadual Luzia Ferreira se diz orgulhosa em fazer parte desse partido que sempre lutou pela democracia e por reformas estruturais em todo o país. "Vinte anos de integridade e intensas lutas a favor do desenvolvimento do Brasil. É com muito orgulho que afirmo fazer parte da história do PPS, e foi com muito respeito e emoção que assumi a responsabilidade de presidir o partido no estado mineiro. Quero continuar a trajetória construída até aqui de forma sempre transparente. E quero principalmente levar as ideologias do nosso partido aos mineiros, para que cada vez mais adeptos se juntem à nossa causa", disse Luzia Ferreira.
Texto do Presidente Nacional do PPS, deputado Roberto Freire:
A transição do PCB para PPS representou um esforço consciente de reconstrução da esquerda democrática brasileira, no momento em que a falência dos paradigmas anteriores tornou-se evidente. Esse esforço assentou-se em alguns princípios que diferenciaram de forma clara o PPS das demais alternativas partidárias da esquerda, ainda vinculadas, de forma mais ou menos ortodoxas, a esses paradigmas. O primeiro é a centralidade da questão democrática. Sem democracia não há mudança sustentável, como mostrou a história dos países que passaram pelo chamado socialismo real. Democracia supõe regras pétreas, como a garantia de direitos individuais e coletivos, mas não pode ser reduzida a um modelo imutável de representação política, como mostra a demanda por canais mais eficientes de participação que se alastra hoje pelo mundo. O segundo é a garantia de padrões mínimos aceitáveis de equidade social, inalcançáveis em condições de funcionamento desregrado dos mercados mundiais, como mostrou sobejamente o incremento das desigualdades nos anos recentes de prosperidade do capitalismo mundial, padrões esses que longe estão de ser superados com medidas assistencialistas. O terceiro é a necessidade do desenvolvimento, condição de patamar mínimo de sobrevivência com dignidade que se pretende instituir como padrão para todos. A nova esquerda democrática não ambiciona socializar a pobreza, mas a prosperidade. O quarto é a incorporação da sustentabilidade como condição do desenvolvimento responsável. Assim como não queremos desenvolvimento à custa da equidade, como tem sido o padrão dos surtos de modernização conservadora no Brasil, tampouco queremos o desenvolvimento à custa das gerações futuras. Nossos descendentes precisam ser incorporados na estratégia da equidade. Transformar esses princípios em diretrizes e projeto político exige pensar em atores e instrumentos. Consideramos que a esquerda democrática deve dirigir-se a todo cidadão e aos mundos do trabalho e da cultura, mas dialogar preferencialmente com um grupo que representa a maioria deles, com interesse direto na tradução dessas ideias em propostas e programas de governo: aqueles cidadãos vinculados não apenas ao antigo mundo dos trabalhadores formais, mas também ao novo e crescente mundo dos trabalhadores autônomos, familiares, cooperados, micro e pequenos empreendedores. (...) Nesse quadro, o PPS prossegue, sem qualquer salvacionismo ou pretensão de exclusividade, com as dificuldades de uma trajetória quase integralmente na oposição, no rastro de seu projeto estratégico: o de reconstruir a esquerda democrática e reformista no Brasil. Nada a estranhar, portanto, do lema do nosso XXVII Congresso, realizado em dezembro passado: unir a esquerda democrática para mudar o país.
A íntegra.

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