quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Ex-veja vê livro de veja sobre José Dirceu

Conti foi editor executivo da revista que escalou um para escrever livro sobre o líder petista. Nas primeiras seis páginas o mestre encontrou uma montanha de erros grosseiros do discípulo. Boa matéria para quem ainda lê veja.

Da revista piauí. 
Chutes para todo lado  
por Mário Sérgio Conti
O título do livro de Otávio Cabral é "Dirceu – A Biografia". O autor poderia ter dispensado o artigo ou posto "uma biografia". Mas tascou a biografia, o que indica a pretensão de ter feito o relato completo e fidedigno da vida de José Dirceu. Tarefa difícil porque o biografado não quis ser entrevistado pelo biógrafo.
Otávio Cabral diz no prólogo ter contado com a ajuda de dois pesquisadores para "vasculhar nove arquivos públicos". Três linhas adiante repete o verbo: "Vasculhei os acervos de nove jornais e oito revistas nacionais, além de quatro publicações estrangeiras", se bem que a BBC não seja uma publicação, e sim uma emissora e um site. Ele fez mais que pesquisar arquivos e órgão de imprensa: vasculhou-os, que os dicionários definem como investigar e esquadrinhar com minúcia.
O livro começa em 1968, com os pais de José Dirceu assistindo pela televisão à sua prisão no Congresso da União Nacional dos Estudantes, em Ibiúna. Informa que a notícia da prisão de José Dirceu foi "transmitida em rede nacional de televisão". Mas o Brasil só teria rede nacional de tevê no ano seguinte.
O autor diz e rediz que Passa Quatro, onde José Dirceu nasceu, tinha 11 mil habitantes. São Paulo contava com 4 milhões de moradores quando ele se mudou para lá. O autor faz o cálculo e conclui que a capital era "trezentas vezes maior do que a sua Passa Quatro natal". Cálculo errado: São Paulo era 363 vezes maior. Dirceu estudou no Colégio Paulistano, "na rua Avanhandava, próximo à praça da Sé". Não, a escola ficava na rua Taguá, na Liberdade. Preparou-se para o vestibular no curso "Di Túlio", que se grafava "Di Tullio".
Antes do golpe de 1964, segundo a biografia, José Dirceu conheceu o autor de novelas Vicente Sesso, "com quem foi trabalhar na TV Tupi, ajudando a redigir roteiros". Sesso "acabara de escrever Minha Doce Namorada, que deu à atriz Regina Duarte o apelido de 'a namoradinha do Brasil'". E José Dirceu "foi praticamente adotado por Sesso, que o levou para morar na sua casa, no mesmo quarto de seu filho adotivo, o ator Marcos Paulo".
José Dirceu não trabalhou na TV Tupi nem fez roteiros. Foi datilógrafo de Sesso. Nunca morou na casa do escritor. Sesso, isso sim, lhe emprestou uma casa que tinha na rua Treze de Maio. Ele só veio a escrever Minha Doce Namorada em 1971, às pressas, para substituir uma novela que obtivera pouca audiência. Essas informações foram dadas pelo próprio José Dirceu numa entrevista a Marília Gabriela que se encontra transcrita na internet. A data e a composição deMinha Doce Namorada podem ser achadas em histórias da teledramaturgia.
São erros tolos? Sem dúvida. Para a caracterização de José Dirceu, interessa pouco saber que em 1968 não havia rede nacional de televisão. Que estudou em tal rua, e não em outra. Que São Paulo era tantas vezes maior que Passa Quatro. Que não escreveu roteiros para a tv Tupi. Mas todos esses equívocos estão nas seis primeiras páginas do capítulo inicial. E a sexta página se encerra com um abuso: Otávio Cabral afirma que José Dirceu apoiava Jango "mais para se opor ao pai do que por ideologia". Nada autoriza o biógrafo a insinuar o melodrama edipiano. Ainda mais porque, dois parágrafos adiante, é transcrita uma declaração na qual José Dirceu afirma que, no dia mesmo do golpe, se opôs à ditadura por "um problema de classe".
O livro realça aspectos pessoais em detrimento dos políticos. Ele repete cinco vezes que nos anos 60 Dirceu tinha cabelos compridos, outras quatro que era cabeludo, e duas dizendo que deixava a "barba por fazer". Caso o leitor não tenha percebido, o livro estampa ainda catorze fotos de Jose Dirceu de cabelos longos e a barba nascendo. A aparência não é anômala nem define o biografado. Muitíssimos jovens eram assim naquela época.
Em contrapartida, o biógrafo não analisa se nos anos 60 José Dirceu era reformista ou revolucionário. Se queria o socialismo ou não. Se considerava a luta de classes o motor da história. Não explica se acreditava mais na guerrilha, no terror ou na legalidade institucional. Ao "vasculhar" a vida de José Dirceu, Cabral se ateve a uma ideia prévia, que ele enuncia assim: "Encontrava na atividade política um prazer e vislumbrava nela uma chance de ascensão social e profissional".
A íntegra.

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