sexta-feira, 29 de março de 2013

80% dos exames complementares da rede pública de saúde são desnecessários

Leio isso no livro de um médico, que cita estudo feito em Niterói.
A maior frequência de diagnósticos dos médicos é de "queixas vagas e mal definidas".
Antes que o leitor apressado ponha a culpa na má administração pública, crítica fácil e superficial, embora muitas vezes acertada, é preciso dizer que na medicina privada o índice é o mesmo ou maior, segundo outro estudo.
Na análise do médico escritor, a causa desse excesso de exames é o modelo de medicina predominante no sistema, que se baseia no hospital, na busca da lesão, no diagnóstico por exames e no tratamento com remédios químicos. Seu objeto é a doença, não é o doente.
Um dado americano assustador: 15% dos cânceres de mama, de acordo com estudo feito nos EUA, são provocados pelas próprias mamografias periódicas.
Nesse modelo de medicina, somos todos submetidos a frequentes cargas de radiação e a substâncias tóxicas, para realização de exames.
Os médicos, depois de seis anos de curso e mais tantos de especializações e residências, pouco mais fazem do que auscultar, medir pressão, pedir exames e prescrever drogas sintéticas.
Eles são preparados em e para hospitais. O hospital é o seu castelo, não o consultório. Nos procedimentos hospitalares -- que, no entanto, são minoria -- eles são magistrais.
Por trás de tudo está a indústria química, dominada por meia dúzia de empresas gigantescas e globais, que produzem desde agrotóxicos até antibióticos.
A medicina não foi sempre assim, esse modelo é coisa recente e não tem nada a ver com Hipócrates, apesar do juramento que os médicos prestam ainda hoje ao se formarem.
É modelo industrial, em que a relação médico-paciente foi relegada a segundo plano, ficando em primeiro a doença, os hospitais, os exames, a tecnologia, as drogas.
É a indústria das drogas, das máquinas sofisticadas, das cirurgias, dos CTI. Tudo muito lucrativo. Nesse modelo, o Estado desperdiçar dinheiro público não é um defeito, ao contrário, é um objetivo, porque esse dinheiro faz parar nos bolsos dessa indústria.
É a mesma lógica do sistema de transporte público deficitário e de péssima qualidade: as empresas estão lucrando com isso, porque o Estado paga.
Como disse um analista da indústria farmacêutica em entrevista ao jornal International Herald Tribune, citado pelo médico: "O primeiro desastre é se você mata pessoas. O segundo é se você as cura. As boas drogas de verdade são aquelas que você pode usar por longo e longo tempo". (A reportagem, em inglês, pode ser lida aqui.) O preço dos remédios é cinco vezes maior para que a indústria farmacêutica pague indenizações nos processos em que é condenada.
Todo medicamento químico é tóxico e provoca efeitos colaterais -- basta ler a bula para pensar duas vezes se vale a pena tomá-lo --, mas estes são desconsiderados e ninguém se responsabiliza por eles, nem médico nem fabricante.
A doença é um bom negócio e enquanto for assim, enquanto gerar grandes lucros, o modelo vai persistir. É a lei máxima do capitalismo.

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