quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O racismo de Monteiro Lobato e Ziraldo

"Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. 'Nós defendemos o front da raça branca – diz o sul – e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil'. Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva." (Monteiro Lobato)

A polêmica da escritora Ana Maria Gonçalves com o Ziraldo sobre Monteiro Lobato é interessante. Ziraldo, como Minas Gerais, são muitos: na época do Pasquim, entre muitos jornalistas e artistas geniais, ou no mínimo cultos, era o bobo da turma, um traço brilhante com ideias pobres; mas já tinha feito A Turma do Pererê, uma grande criação em quadrinhos brasileiros, que só não é maior que o Negrim do Pastoreio, do também mineiro Nilson; tinha feito também os interessantes Zerois, Supermãe e Jeremias, o bom; mais tarde, Ziraldo criou o best-seller Menino Maluquinho, que deu filhotes e virou filme excelente, nas mãos de mais um mineiro, Helvécio Ratton, e série igualmente boa, adaptada por Ana Muylaert e Cao Hamburger, na TV Brasil (o Pererê também virou série, não tão boa); atualmente, Ziraldo, que caminha para os 80 anos com vigor e criatividade admiráveis, tem programa na tevê pública. Tem ainda o Ziraldo esperto, que não paga seus colaboradores e que ganhou indenização milionária e pensão vitalícia por ter sido perseguido (quem não foi?) pela ditadura militar. Bom de marketing e promoção pessoal (Lobato também era: tornou seu Jeca Tatu garoto propaganda do Biotônico Fontoura), o que não é muito comum em artistas e menos ainda em intelectuais, Ziraldo não pode ser definido de outra forma, porém, senão como intelectual, tamanha a sua obra – ainda que parte dela tenha sido adaptada por outros ou criada em estúdio, coletivamente, à la Maurício de Sousa. Mas Ziraldo escorrega, aqui e ali, desde os áureos tempos do Pasquim. Neste caso derrapa feio na defesa do nosso querido Monteiro Lobato. Este, é claro, derrapou muito mais fazendo campanha pela eugenia. Sabemos aqui que o autor do Sítio do Picapau Amarelo usava sua literatura infantil para demonstrar aos pequenos leitores, sub-repticiamente, a inferioridade racial dos negros. Realmente, os livros de Lobato estão recheados de passagens preconceituosas, que nós relevamos em nome das histórias deliciosas que encheram a fantasia de muitas gerações de crianças brasileiras. (Num dos livros, se não me engano A reforma da natureza, o escritor inclui entre os grandes líderes mundiais o fascista Mussolini.) Uma coisa, porém, é ter preconceitos e transmiti-los involuntariamente na sua obra, no começo do século passado, quando a abolição da escravatura no País era ainda recente e o mundo atravessa período conturbado; outra coisa é ser um convicto defensor da superioridade da raça branca e da sua purificação, antes mesmo da ascensão do nazismo. Pior: usar deliberadamente sua literatura infantil para incutir nas crianças seus preconceitos. Não conheço a resposta do Ziraldo, mas o texto da escritora, publicado em fevereiro deste ano, é irretocável. As cartas de Lobato citadas são de estarrecer. Não pertencem ao passado: lembram as manifestações fascistoides na internet contra a candidatura Dilma, em 2010.

Carta aberta ao Ziraldo
Ana Maria Gonçalves
Caro Ziraldo,
Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca "Que merda é essa?" e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, emcarta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: "(...) Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. "Que foi?" "Desastre na Central." Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!..." (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).
Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de onde foi tirado o trecho acima é inspirado em um quadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa : "Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista". A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o "humor negro" de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".
Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não veem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, "work" muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu "processo" sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros. Ele falava do livro "O presidente negro ou O choque das raças" que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois: "Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha".
Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros."

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