domingo, 4 de novembro de 2012

O Brasil pós-desenvolvimentista

O Brasil pós-Lula e Dilma, considerando que o atual governo é continuação do anterior. Os governos do PT foram uma novidade no Brasil porque levaram ao poder um partido trabalhista preocupado com os mais pobres, o que só havia acontecido antes nos governos de Getúlio e Jango. Trabalhismo com continuidade, o que aqueles governos não tiveram -- um foi interrompido pela tentativa de golpe e pelo suicídio do presidente, outro pelo golpe bem-sucedido. Este trabalhismo petista, no entanto, retoma o desenvolvimentismo, que nasceu com Getúlio, mas tomou forma efetiva com JK, num governo que fundou as características do Brasil contemporêno: o Estado conduzindo a economia, associação entre capital estatal e capital privado, atração de capital estrangeiro, industrialização, urbanização, transporte rodoviário, energia hidrelétrica, monoculturas exportadoras. O modelo JK foi retomado pela ditadura e novamente retomado pelo PT, depois de interrupções provocadas por crises econômicas. A inovação do PT foi introduzir políticas de distribuição de renda, o que nem JK nem a ditadura fizeram. O modelo, no entanto, é o mesmo, e seu resultado é o resultado do capitalismo em todos os países do planeta (além da desigualdade, com a formação de uma casta de milionários): devastação ambiental, em consequência do consumo crescente e da demanda de energia idem. Ao mesmo tempo em que os governos -- e as populações que os elegem -- têm que se preocupar com o acesso da maioria dos seres humanos às riquezas (desde necessidades mínimas, como comida, moradia, saneamento etc., até os bens sofisticados da atualidade, como tecnologias diversas), têm também de se preocupar com o desastre ambiental cada vez mais iminente, pois a Terra não é produzida em série e as futuras gerações vão ter de viver aqui; tudo que estamos destruindo em algumas décadas levou milhões de anos para se formar e as condições em que viverão nossos descendentes serão muito difíceis. Em outras palavras, um bom governo, nos dias atuais, é muito mais do que um governo desenvolvimentista que distribui renda. O que importa para os pobres de hoje é distribuir renda, mas o que importa para nossos filhos e netos é que o planeta continue a oferecer condições para a sobrevivência da espécie humana.

Da Agência Carta Maior. 
Brasil: como criar as condições para a "Grande Transição"? 
Cândido Grzybowski (*)
Há alguns anos foi constituído um grupo de trabalho internacional – "The great transition initiative: visions and pathways for a hopeful future" – para pensar propostas e práticas de transição para uma civilização planetária enraizada na solidariedade, na sustentabilidade e no bem-estar humano. Tratava-se de definir como, em cada situação, desencadear processos, aqui e agora, que gestem a necessária transformação dos impasses a que nos levou o desenvolvimento capitalista industrial, produtivista e consumista, gerador de exclusões e desigualdades sociais eticamente inaceitáveis e, ao mesmo tempo, da destruição ambiental que ameaça todas as formas de vida e a integridade do planeta Terra. Como definir e criar as condições para isso no Brasil, hoje uma das festejadas potências emergentes?
Nunca é demais lembrar o quanto o Brasil é ainda um país profundamente injusto.
A questão da pobreza funciona como um divisor político no processo de democratização do Brasil e nas opções de desenvolvimento. O debate sobre o desenvolvimento no Brasil é dominado pelas visão e propostas em relação ao quanto, como modelo e estratégia, ele é distributivista e se é capaz ou não de enfrentar a enorme pobreza. O debate da destruição ambiental, na arena pública, quando existe, tende a ser dominado pela questão da justiça social. Considero ainda embrionárias e até aqui com pouca capacidade de incidência política as demandas por aliar a dimensão da justiça social e a dimensão ambiental como faces da mesma questão. No Brasil, é ainda bem marginal o debate de alternativas ao desenvolvimento, de mudança de paradigma, de transformar processos.
Esse é o ponto de partida, duro e difícil, de onde devemos partir para então pensar em mudar, definindo as propostas e analisando se e como é possível politicamente viabilizá-las. Devido à urgência que a mudança climática levanta, fixo meu olhar na questão energética, na questão do agronegócio e, para finalizar, no que é preciso criar em termos de imaginário mobilizador e de incidência no debate público para viabilizar um processo de transição para outro paradigma civilizatório.
A íntegra.

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