quarta-feira, 23 de abril de 2014

Seca, multa e incompetência

Há dois aspectos nessa crise paulista.
O primeiro e mais importante é que não é só paulista, diz respeito ao modelo econômico no qual vivemos todos, no mundo, que tem como consequências as mudanças climáticas e as catástrofes ambientais -- previstas há décadas, mas ignoradas pelos poderosos e agora já consideradas irreversíveis -- que as acompanham e levam a humanidade para a barbárie.
O outro aspecto é local, nacional, e diz respeito aos grupos políticos e ideias que renasceram no Brasil depois da ditadura.
Tucanos têm um problema com água. No fim do governo FHC foi o racionamento de energia, agora, no fim do governo Alckmin, em SP, é racionamento de água...
E no entanto a palavra de ordem dos tucanos é... competência!
Devia ser propaganda! Porque é o que fazem de melhor: muita propaganda, muito gogó, muita pose, muito discurso bonito.
Quem ouvia o ex-governador Anastasia discursando, pensava: que menino competente! No entanto...
Aécio não, porque, que eu conheça, ninguém nunca o levou a sério; ele sempre foi considerado o neto playboy do Tancredo, todo mundo sempre soube que falava da boca pra fora, imita o jeito do avô e repete o que lhe passam bons assessores, e até seus amigos dizem que não tem preparo, não estudou, não lê. Mas Anastasia era o símbolo da competência! E no entanto não pagava nem o piso para os professores! Manipulava números de criminalidade para parecer que a segurança tinha melhorado! Manipulava verbas para saúde para fingir que estava cumprindo o que manda a Constituição! No dia seguinte a um belo discurso ia de pires na mão pedir ajuda ao governo federal...
Essa incompetência tucana, porém, não é defeito pessoal, por isso não atinge só Aécio e Anastasia, atinge também Alckmin.
Também não é porque os três nomes começam pela letra A.
É consequência da concepção política que transfere tudo para a iniciativa privada, que acredita que o mercado resolve os problemas, que não é preciso ampliar as ações do Estado, muito menos aumentar e pagar bem o funcionalismo.
Não é preciso planejar, porque planejar é coisa do Estado e tucano detesta Estado.
Quer dizer, exceto os altos cargos e altos salários, salários compatíveis com "os melhores quadros", "capturados no mercado", que trazem para o setor público "a competência da iniciativa privada" bla-bla-bla...
Tucanos fracassam naquilo que justifica sua existência: competência.
Tucanos pensam que tudo se resolve com "uma boa gestão", mas quem já conviveu com técnicos tucanos sabe que o que eles chamam de "gestão" se resume a produzir belos discursos, belos documentos, belas apresentações usando as mais modernas tecnologias e palavras estrangeiras, para demonstrar que são modernos e atualizados com o que há de melhor no mundo, quer dizer, nos EUA, na Europa...
Belas propagandas! 
Tudo em gabinete, distante das ruas, insensível à gente.
A relação dos tucanos com o povo se resume à propaganda.
Os tucanos foram a maior decepção da política brasileira pós-ditadura.
Quem ouvia Covas falar, em 1989, quando ele era o tucano-mor, não era FHC, que sempre foi boquirroto, prestou-se ao papel ridículo de sentar na cadeira do prefeito antes de ser eleito, achava-se mais que o máximo. Covas, não, era o sério, o político que foi golpeado pela ditadura e voltou tão íntegro quanto saiu, e atualizado, e quem o ouvia falar ficava convencido...
Enquanto isso, os petistas pareciam antigos, ligados a coisas velhas como socialismo, revolução, povo, trabalhadores etc.
Os tucanos modernos e limpinhos, bem vestidos, de barba feita, os petistas antigos e sujos, mal vestidos, barba por fazer...
No mundo tucano não tem trabalhadores, tem "colaboradores".
No mundo tucano não tem conflito, tem "competição".
No mundo tucano não tem capital, tem "empreendedorismo".
No mundo tucano não tem coletividade, tem só indivíduos.
Depois que o Muro de Berlim caiu e a URSS desmoronou, então, foi como se os escombros tivessem sepultado o PT... Enquanto os tucanos apareciam mais sorridentes e saltitantes do que nunca, conectados com o novo, insinuando: "eu não disse?"
No admirável mundo novo liberal, neoliberal, quem ia dar atenção para vermelhos sujos, se havia azuis limpinhos?
E no entanto...
Qual foi a grande obra de FHC (além de terminar o que Collor começou, privatizando tudo que pôde)? A emenda para sua reeleição!
Vinte e cinco anos depois da primeira eleição direta para presidente, o PT, bem ou mal, contrói o Brasil contemporâneo -- bem na distribuição de renda, no pleno emprego, no crescimento, no controle da economia; mal no meio ambiente, na educação e na democratização do poder (e não nos iludamos: a lua-de-mel do PT com grande parte dos empresários vem do fato de o governo lhes dar o que querem, isto é, muito dinheiro do Estado e muitas mamatas). Enquanto isso, os tucanos tornaram-se símbolo de decadência, ligados ao que há de mais atrasado -- a "grande" imprensa protofascista, os políticos de direita, a repressão policial e até mesmo a memória da ditadura.
Como disse, não foi sempre assim: no fim da ditadura, o nascimento do PSDB representou aspirações progressistas e democráticas.
A história não se faz só com fatos, mas também com sentimentos, com comportamentos, com alma, e sempre faltou alma aos tucanos. Sobrou pose.
Como falta energia e água, mas sobra propaganda.
Dilma tem repetido o que foi o título de um artigo que escrevi no Cometa Itabirano: o povo nas ruas quer mais, não quer menos.
Lula, na entrevista aos blogueiros, repetiu outra coisa que escrevi em outro artigo publicado no Cometa: o Brasil precisa de uma oposição de esquerda, mas todos os candidatos que surgem vão pra direita!
Lula e Dilma dizem o óbvio.
Embora o governo petista esteja aquém do que queremos e precisamos, os petistas têm sensibilidade para o povo, porque vieram dele.
Os tucanos nunca saíram dos gabinetes com ar condicionado.

Da RBA.
Alckmin anuncia multa de 30% na conta de água para quem aumentar consumo
Segundo governador, água será puxada da represa Billings para reduzir dependência do Cantareira na região metropolitana; represas chegaram nível mais baixo da história

São Paulo – Hoje (22/4/14), o Sistema Cantareira registrou a marca de 11,9% do volume útil disponível nas represas, o nível mais baixo da história. E o governo do estado, mais uma vez, dá mostras de que a população é quem vai arcar com as despesas do histórico déficit de água. Ontem (21), o governador Geraldo Alckmin (PSDB) anunciou em visita a Franca -- cidade interiorana a 345 quilômetros de São Paulo -- duas novas medidas para lidar com a seca que causou a redução do nível do volume útil das represas: a interligação do sistema com um braço da represa Billings, no ABC Paulista, para aumentar a oferta de água, e o início de cobrança de multa de 30% sobre a conta para quem aumentar o consumo a partir de maio.
A íntegra.

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