sexta-feira, 25 de abril de 2014

Shakespeare por Tolstoi

Li Tolstoi tardiamente, um dos poucos grandes russos que não li na juventude. Achava que era pesadão, ao contrário do frenético Dostoiévski e do delicado Turgueniev, os quais li de uma sentada só. Continuo achando assim, depois de lê-lo: como pode alguém escrever um romance como Guerra e Paz, com mais de mil páginas? No entanto, poucas vezes li histórias tão brilhantes quanto Hadji Murat e A morte de Ivan Ilitch. Nestes livros menores conheci o gênio de Tolstoi. Ainda quero enfrentar Ana Karênina, outro livrão.
Nunca duvidei de Shakespeare, como por exemplo duvido de Joyce, um escritor cujos livros vêm com bula (ontem mesmo vi um programa sobre ele e tive vontade de lê-lo novamente, sem pretensão, mas logo vi que não é possível, que a leitura não me daria prazer, porque é realmente um autor para iniciados e isso pra mim é um defeito, não é uma virtude: de que adianta escrever uma história genial se ninguém a entende, se é preciso ser o autor, ou tê-lo do lado explicando?). A leitura de Romeu e Julieta, na tradução de Onestaldo de Pennafort, a mesma que o Galpão usou no seu espetáculo, foi uma das melhores experiências literárias da minha vida, comparável só às leituras de O vermelho e o negro, de Stendhal, Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, e O primeiro amor, de Turgueniev, leituras para (jovens) apaixonados, febris. E também sempre tive muito prazer vendo, não lendo, peças e filmes sobre outras tragédias e comédias suas. No entanto, tenho de reconhecer que estive sempre influenciado a gostar do gênio, por isso mesmo, pela unanimidade que o cerca, pela ideia de que, se não gostasse, o problema seria comigo, não com ele, pelo receio de não compreender sua profundidade etc. e tal. E de fato não gostei de algumas coisas, pelo menos nenhuma encenação que vi foi tão forte quanto a impressão que me deixou três vezes Romeu e Julieta: no filme de Zeffirelli, na leitura e na versão do Galpão.
O que Tolstoi escreveu é verdade, e é uma das coisas que impressionam em Shakespeare, porque dá grandiosidade às cenas, coisa que a vida real não tem. Shakespeare me intimida e por isso nunca tive coragem de dizer o que Tolstoi diz, embora pensasse, mas afastava a ideia rapidamente da cabeça... Entre o choro e o riso o limite é estreito. O que não significa que Tolstoi esteja certo; não gosto de ler Shakespeare, mas Romeu e Julieta funcionou, assim como outras peças, ainda que menos. Teatro não é mesmo para ser lido, é para ser visto, e aí, entre autor e plateia, tem a companhia: atores, diretor, cenógrafo... Mas Romeu e Julieta funcionou como leitura, repito, pelo menos para mim.
A esta altura da minha vida, ler é prazer. Leio por obrigação, quer dizer, insisto em leituras que julgo terem valor, mesmo que eu não tenha gostado na primeira vez ou na segunda, mas não tenho o menor pudor em saltar páginas em busca do que interessa: o prazer da leitura, aquele trecho que me pega e me faz parar de pensar na minha vida para pensar em coisas nas quais nunca tinha pensado. Literatura é isso, descansar a mente, tirá-la do círculo vicioso dos nossos próprios pensamentos, acrescentar uma ideia nova que cria um novo círculo, virtuoso. Por isso, na minha estante, Ulisses continua ocupando um lugar ao lado de Os sertões, outra obra prima ilegível, pelo menos para mim e até hoje. Bem distante de Grandes Sertões, obra prima que muitos comparam à literatura de Joyce, mas que desperta prazer e apaixona.
E há os livros que não exigem esforço algum, os melhores, os que ficam na lembrança e no coração, a leitura prazerosa que nos leva além da nossa mente e provocam admiração profunda, simpatia eterna: Os três mosqueteiros, A montanha mágica, Crime e castigo, O jogador, Os irmãos Karamázov, Pais e filhos, A náusea, Tônio Kroeger, O encontro marcado, Jorge, um brasileiro, Insônia, além dos já citados e até de um joyceano, Retrato do artista quando jovem, que no entanto pouco tem a ver com o que faz a fama do irlandês.

Do DCM.  
Por que Tolstoi achava Shakespeare uma farsa  
Paulo Nogueira

"Li muitas vezes as tragédias e as comédias e as peças históricas, e invariavelmente tive sempre os mesmos sentimentos: repulsa, desagrado, irritação", escreveu Tolstoi. "Acredito que Shakespeare não pode ser reconhecido nem como um grande gênio e nem como um autor mediano."
Tolstoi achava os diálogos de Shakespeare absurdos. Isso, para ele, era imperdoável num escritor.
"O meio mais importante, se não o único, de retratar um personagem é a individualidade da linguagem, ou seja, a maneira de falar de uma pessoa tem que ser compatível com sua condição. Isso não existe em Shakespeare. Todos as suas personagens falam não sua linguagem, mas a de Shakespeare – pretensiosa e artificial. Não apenas as personagens não falariam daquela maneira, mas ninguém em todo o mundo."
Um pouco adiante, Tolstoi aprofundaria essa sua tese. "Os apaixonados, os que estão se preparando para morrer, os que estão lutando, os que estão morrendo, todos falam muito, e subitamente, sobre assuntos absolutamente impróprios para a ocasião."
A íntegra.

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