terça-feira, 26 de junho de 2012

O golpe no Paraguai: o que está em jogo

O Paraguai é um país pequeno, pobre e extremamente desigual, cuja população descende dos indígenas guaranis. Na segunda metade do século XIX tentou se impor na América do Sul, entre gigantes como Brasil e Argentina, quis ampliar suas fronteiras, quis ter saída para o mar. Naquela época, as nações atuais estavam ainda se formando e guerras expansionistas eram comuns: os EUA, por exemplo, se formaram a grande nação que são hoje assim, fazendo guerra e tomando terras de outros países.
O Paraguai de Solano López, uma espécie de Napoleão paraguaio, era um povo bravo e orgulhoso, tinha o melhor exército da América do Sul, e deu uma surra nos brasileiros e argentinos (apoiados pela poderosa Inglaterra), antes de ser dizimado por uma força armada inúmeras vezes superior à sua. O Brasil precisou recrutar soldados entre civis para enfrentar o exército guarani: os "voluntários da pátria", principalmente negros escravos que lutaram em troca da liberdade.
A "Tríplice Aliança" (que incluiu o Uruguai) arrasou o Paraguai. Praticamente todos os homens adultos e jovens paraguaios foram mortos na guerra. Desde então o país se tornou um pária na América do Sul, uma nação de segunda classe, humilhada, dominada por ditadores submissos a interesses de empresas e governos estrangeiros, onde os corruptos e os ricos podem tudo. O governo do presidente Lugo, um raro governante esquerdista, é (era?) uma tentativa de mudar isso.
Por ser esse país pequeno em que a política não consegue dissimular os fatos, o Paraguai nos possibilita ver com clareza os interesses em conflito no mundo contemporâneo e que também atingem o Brasil. Um desses interesses é o que une os diversos setores do agronegócio, em oposição aos interesses de pequenos agricultores, indígenas, nacionais e humanos.
Alimentação da população, por exemplo, é um interesse nacional, alguém duvida? Saúde da população também é, ou não? Proteção ao meio ambiente é mais que nacional, é um interesse mundial. Estes interesses são defendidos por trabalhores rurais, entre os quais se incluem os movimentos dos trabalhadores sem terra e os movimentos de povos indígenas, grande parte deles expulsos das terras onde viveram seus ancestrais por latifundiários e empresas agrícolas, com apoio de jagunços, polícias, governos e juízes.
Quais são os interesses do agronegócio? Produzir commodities -- soja, café, açúcar etc. -- para exportação. Para isso precisam de grandes áreas, que são tomadas dos pequenos agricultores; derrubam as matas para limpar o terreno para a monocultura e extinguem espécies animais e vegetais; usam intensamente e controlam a água, provocando desequilíbrios ambientais e sociais; usam intensamente agrotóxicos, envenenando a terra, os cursos d'água, o ar e os trabalhadores; usam intensamente máquinas agrícolas, dispensando trabalhadores e provocando desemprego, migração para as cidades, inchaço destas, favelas etc.; usam sementes transgênicas, produzidas por meia dúzia de multinacionais que dessa forma assumem o controle da produção.
Tudo isso em nome de quê? De gerar divisas para o país, com a exportação; de produzir alimentos para matar a fome no mundo. Nessa divisão internacional da produção capitalista no mundo globalizado, o Brasil e a América do Sul teriam esse papel importante de produzir alimentos, graças às suas vastas e boas terras. Mas por que então a fome no mundo continua tão grande? Por que populações pobres na África e em outros países, inclusive nos países produtores da América do Sul, continuam morrendo de fome? Por que então deixar sem terra e na miséria os agricultores que antes tinham terra para plantar? Por que então não produzir alimentos para consumo no próprio país?
Quem produz alimentos para consumo interno são pequenos produtores. O agronegócio é o modelo que o grande capital reserva para o capitalismo na América do Sul, é por ele que o capital se expande no continente, gerando lucros estupendos. Trata-se de um capital multinacional que toma forma de agronegócio: empresas produtoras de sementes, de agrotóxicos, de máquinas agrícolas, latifundiários e exportadores.
Ele constitui um dos grupos econômicos mais fortes, senão o mais forte, com enorme influência nos governos e nos parlamentos, na justiça e na imprensa. Pode tudo, faz tudo, goza de privilégios e imunidade. Não sofre qualquer punição pelos males e crimes que comete, ao contrário, é considerado "moderno", gerador de riquezas, fundamental para o equilíbrio das contas nacionais; é bajulado e invejado por políticos e "grande" imprensa, os quais sustenta com verbas publicitárias e ajuda para campanhas eleitorais.
Entre as coisas que o agronegócio pode e faz sistematicamente estão: o desmatamento; o uso de trabalho escravo; o envenenamento da terra, dos cursos d'água, dos trabalhadores e dos alimentos; a expulsão de pequenos agricultores; o assassinato de lideranças de trabalhadores e embientalistas.
Movimentos de trabalhadores rurais sem terra, indígenas e ambientalistas resistem, mas têm contra si governos -- inclusive governos de esquerda encantados com a "produtividade do agronegócio" --, polícias, juízes e imprensa. Estes que querem apenas o direito à terra dos seus ancestrais, o direito de produzir alimentos, o direito de trabalhar, a preservação da biodiversidade e dos recursos naturais para as próximas gerações -- estes são sistematicamente tratados como criminosos, como desordeiros, como subversivos, como "comunistas" até, ainda.
É esse embate que vemos diariamente em notícias desconexas ou deturpadas e que o golpe no Paraguai deixa mais claro. Não tem nada a ver com corrupção, lá como aqui; não tem nada a ver com incompetência para administrar: tem a ver com interesses econômicos, tem a ver com o lucro, tem a ver com o conflito entre trabalhadores e capitalistas, tem a ver com ganância e crime contra a humanidade.
É um embate que nos interessa a todos, porque decide o futuro dos nossos filhos, do meio ambiente e do planeta. É mais uma batalha da guerra que se trava entre um punhado de capitalistas e todo o resto da população mundial na escolha do mundo que teremos neste século XXI.

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