sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Nassif, Biondi, PSDB, PT, desenvolvimento e meio ambiente

Luis Nassif é um jornalista singular no Brasil de hoje. Sem compromisso com ideias de esquerda, mas lúcido o bastante para não repetir mantras neoliberais, ele vem construindo um projeto de Brasil baseado no conhecimento aprofundado da realidade.
Não é novidade na sua trajetória de jornalista investigativo e crítico, rica em ações de grande repercussão, alheias a grupos e ideologias. Pragmatismo é a palavra que define Nassif e no entanto não se pode negar seu idealismo, uma obsessão por buscar o melhor para o País.
Me lembra o jornalista Aloysio Biondi, que morreu há 14 anos, voz solitária no meio da azáfama neoliberal a denunciar os crimes dos governos FHC, persistente em apontar caminhos para o Brasil, em análises concretas, sensatas e originais.
E me faz pensar também no que o PSDB poderia ter sido e não foi, no que ensaiou ser, prometia ser, talvez tenha sido no começo. Muito diferente do que se tornou com o márquetim vazio do Aécio, baseado na propaganda intensiva, na compra da imprensa, na cópia farsesca das imagens de JK e no apelo exorbitante e tedioso à memória do avô, sem ter o que mostrar de fato, executando uma mistura confusa de neoliberalismo com o velho populismo, à mercê de técnicos espertalhões ou bem-intencionados, enquanto "goza a vida adoidado"...
A falência do PSDB começou quando adotou sem reservas o ideário neoliberal; em vez de proceder a uma criteriosa, modernizadora e democratizante desestatização, curvou-se à ideologia predominante no mercado internacional e nos governos mais conservadores, entregando a grandes grupos econômicos empresas fundamentais, com graves prejuízos para o país.
A decadência do PSDB prosseguiu com a compra da reeleição de FHC. Nenhum presidente de respeito pode mudar a Constituição em seu benefício; o crítico incisivo de Getúlio repetiu o movimento do ditador do Estado Novo, de outra forma, e apequenou-se mais uma vez.
Por fim, a desmoralização tucana consumou-se quando, para enfrentar o PT, guinou para a direita, abraçou as ideias, os grupos e as cabeças mais reacionárias, tornando-se porta-voz de um emergente movimento protofascista.
Fazendo isso, o PSDB deixou o centro livre para o PT.
O PT, por sua vez, nascido como partido de esquerda, na falta de um partido de centro, moveu-se para ele.
Aloysio Biondi não poderia ser chamado de petista, Nassif também não. Estariam mais perto das ideias tucanas -- as anunciadas, não as que vingaram. Se hoje tanto um quanto outro são respeitados por petistas é porque o PT caminhou para o centro.
Nassif tem uma fraqueza, na minha opinião, que é a mesma fraqueza do PT: cego pela ideia do desenvolvimento, não leva devidamente a sério a questão ambiental; não vê que o planeta está em colapso e que qualquer política, hoje, precisa ter como principal referência a recuperação e a conservação do ambiente.

Do jornal GGN.
O pragmatismo com rumo, nas ações do próximo governosex, 17/10/2014 - 06:00, atualizado em 17/10/2014 - 06:57

Luis Nassif

Os melhores governos são os que não se prendem a padrões ideológicos.
Há que se ter uma visão estratégica, apontar um caminho que conduza ao desenvolvimento econômico e social e, depois, buscar na economia as peças para compor o quebra-cabeças do desenvolvimento.
A marca dos grandes estadistas é o pragmatismo, não o enquadramento ideológico.
Nos anos 50, alguns dos principais homens públicos brasileiros, ligados ao mercado internacional, defenderam a criação da Petrobras estatal, por saber não haver condições de ser bancada por capital privado.
No final dos anos 60, o maior baluarte do liberalismo brasileiro, Roberto Campos, comandou a estatização de empresas do setor elétrico, devido à falta de investimentos do setor privado.
O governo JK, legítimo herdeiro do poder político do getulismo, comandou uma revolução juntando o capital multinacional com capitais brasileiros.
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O Brasil hoje em dia é um tabuleiro de xadrez com todas as peças. Tem grandes estatais, grandes bancos públicos, uma apreciável poupança privada, um mercado de capitais desenvolvido, um rede universitária expandida, centros de excelência, modelos de gestão, compras públicas, uma sociedade civil extraordinariamente pujante, representada em conferências nacionais.
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O papel do governante não pode ser abrir mão do aparato público existente e da coordenação das políticas industriais e de compras públicas. Por outro lado, também não pode ignorar o papel relevante da poupança privada e do mercado.
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Um governo pragmático partiria, inicialmente, de alguns princípios programáticos sólidos:
1. Tem-se uma democracia social que avançou antes que a economia se tornasse competitiva. Por isso é questão nacional o fortalecimento da produção interna, a agregação de valor, o avanço tecnológico.
2. A macroeconomia precisa estar atrelada a esse modelo. Não adiantam políticas industriais com um câmbio que destrói a competitividade e taxas de juros que desviam recursos do investimento.
3. O papel das empresas públicas e dos bancos públicos deve ser supletivo e indutor da poupança privada. Para tanto, há que se trabalhar todos os instrumentos de mercado.
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É impossível a uma pessoa só decidir sobre a diversidade de temas da mais alta complexidade.
Só é possível governar trazendo lideranças expressivas para conduzir cada setor econômico, social e político.
Tome-se o caso da agricultura. Há estratégias a serem montadas para a carne bovina brasileira entrar nos Estados Unidos, a suína na China. Há questões relevantes sanitárias, questões burocráticas em relação a licenciamento de patentes. Esse desafio exige lideranças com visão ampla, interna e internacional. Não é um político menor ou um burocrata que dará conta desse desafio.
A íntegra.

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