quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O que é marketing político

A melhor reportagem sobre eleições que eu li nos últimos tempos. Mostra a invenção do marketing político nos EUA e como ele decidiu a eleição para governador na Califórnia, em 1934.

Do blog Redecastorphoto. 
A fábrica de mentiras
Como política virou negócio
Jill Lepore, New Torker, 24/9/2012(Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu)
"Eu, governador da Califórnia, e como erradiquei a pobreza", livro de Upton Sinclair [1], é provavelmente a mais excitante peça de campanha eleitoral jamais escrita. Em vez do vazio de sempre, Sinclair, autor de 47 romances, entre os quais, e mais famoso, "A Selva" [The Jungle] escreveu... um romance, uma peça de ficção. "Eu, Governador da Califórnia", publicado em 1933, anunciava a candidatura de Sinclair sob a forma de uma história 'no futuro', na qual Sinclair é eleito governador em 1934 e, já em 1938 havia erradicado a pobreza. "Que me conste", o autor observava, "é a primeira vez que um romancista decidiu tornar realidade a própria ficção".
O livro tinha apenas 64 páginas, mas vendeu 150 mil exemplares em quatro meses. Capítulo 1: "Numa noite, em agosto de 1933, cinco membros do Comitê Central do Partido Democrata no Condado reuniram-se para a 16ª Assembleia Distrital do Estado da Califórnia". Pode não parecer grande coisa, se você esqueceu que, naquele momento, a Califórnia era estado de partido único: em 1931, praticamente todas as 120 cadeiras na Assembleia estadual eram ocupadas por Republicanos; nenhum representante Democrata tinha comitê de alcance estadual na Califórnia. Vale lembrar também que o desemprego, no estado, estava em 29%. Voltando àquela reunião, em agosto de 1933: "O objetivo da reunião era discutir com Upton Sinclair a possibilidade de registrar-se como membro do Partido Democrata e, nessa condição, apresentar-se como candidato ao governo da Califórnia". E se Sinclair, socialista conhecido, uma vida inteira dedicada ao socialismo, concorresse como Democrata? Que magnífica virada na trama!
A coisa realmente esquenta depois que Sinclair adota, como slogan de campanha, a frase "End poverty in Califórnia" [Erradicar a pobreza na Califórnia] ("Alguém lembrou que com as iniciais dessas palavras podia-se escrever "Epic" [épico]"); como emblema de campanha, atropela a águia e o falcão ("pessoalmente, não tenho nenhuma simpatia por aves de rapina" – o candidato repete) em favor de uma abelhinha trabalhadeira ("abelhas trabalham duro e, melhor que isso, são muito bem equipadas para a autodefesa"); expõe seu programa de fábricas e fazendas em cooperativa que implementaria sua filosofia de "produção para o uso", não para o lucro; propõe acabar com os impostos sobre produtos comprados e criar um imposto sobre a renda, algo como 30% sobre tudo que alguém ganhe acima de 50 mil dólares/ano; e promete, não só abrir as portas do Inferno, mas, sobretudo, ser eleito.
Seja como for, foi terrível choque para praticamente todo o mundo quando, em agosto de 1934, Sinclair obteve a indicação do Partido Democrata, com mais votos do que qualquer candidato em qualquer primária na Califórnia jamais obtivera. Acontece assim também no romance – que é o que torna a leitura tão excitante (ou, para muita gente, tão apavorante): constatar que aconteceu, passo a passo, o que Sinclair imaginara que aconteceria. Capítulo 4: "Notícias de que os eleitores Democratas da Califórnia associaram o Partido ao plano Epic causaram furor em todo o país." ACONTECEU. "Resultou em ampla discussão do plano em revistas nacionais, o que levou à constituição de um Comitê Epic Nacional." Na prática, foi isso! "Declaração de apoio a Sinclair para governador, assinada por uma centena de grandes autores, e grupos de intelectuais, por todo o país, recomendando a adoção do plano Epic para outros estados e municípios. Grupo de economistas de visão apoiaram o plano e cartas chegavam, de grande grupo de senadores dos EUA e de cerca de 50 deputados". OK. Isso jamais aconteceu.
Em 1934, Sinclair explicou o que acontecera naquele ano eleitoral, numa continuação não ficcional do romance, que levou o título de "Eu, candidato a governador, e como fui detonado" [I, Candidate for Governor, and How I Got Licked] [2]. "Quando eu era menino, o presidente da Universidade de Harvard escreveu sobre “o intelectual na política" – Sinclair começou. "Narro aqui como um intelectual entrou na política e o que lhe aconteceu". "Como fui detonado" foi publicado em capítulos em 50 jornais. No relato, Sinclair conta como, imediatamente depois da Convenção Democrata, o Los Angeles Times passou a publicar, na primeira página, um box com frases de autoria de Upton Sinclair; e continuou, sem parar, todos os dias, por seis semanas, até a abertura das urnas. "Lendo aquilo, todos os dias" – Sinclair escreveu – "compreendi que a eleição estava perdida".
A íntegra.

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