sábado, 4 de outubro de 2014

Hugo Carvana, o vagabundo brasileiro

Hugo Carvana, que morreu hoje, aos 77 anos (4/6/1937-4/10/2014), foi o grande cineasta brasileiro pós AI-5, quando o Cinema Novo entrou em colapso, com o segundo golpe, que atingiu as classes médias, os estudantes e os artistas, especialmente.
Diferentemente de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues, Ruy Guerra, Luís Sérgio Person e outros, Carvana fazia filmes leves, bem-humorados, mas igualmente subversivos: quer coisa mais subversiva do que ser vagabundo em pleno "milagre brasileiro"? Estava para o cinema como o Pasquim estava para o jornalismo, e com isso conseguia aliviar por algumas horas a barra pesada dos anos de chumbo.
"Vai trabalhar vagabundo" (1973), com a deliciosa trilha musical do Chico Buarque, foi um sopro de vida numa época em que a morte respirava nos cangotes.
Leio que o filme foi restaurado e exibido no Festival do Rio, há poucos dias. Merece ser visto -- ou revisto.
Os filmes de Carvana têm um ar das velhas chanchadas. Ao celebrar o Rio e o carioca, Carvana celebrava o passado, no cinema e na vida real.
O Brasil dos filmes de Carvana (até mesmo o recente "Não se preocupe, nada vai dar certo") pertence aos anos 50 e extinguiu-se nos anos 60, começou a morrer com a mudança da capital para Brasília e foi enterrado pela ditadura.
O Rio que "Vai trabalhar..." mostra é o que estava sendo destruído aceleradamente pelo "milagre". Sob muitos aspectos foi um passado melhor do que o presente.

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