terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A voz do morro, a voz dos comuns

O Canal Brasil exibe esta semana "Uma onda no ar", que conta a história da Rádio Favela de Belo Horizonte. Passados dez anos, o filme de Helvécio Ratton mostra-se uma pequena obra-prima. Ratton é um autor de obras-primas: a mesma impressão tive há alguns meses revendo "Amor & Cia.", seu filme de 1999. Ambos têm a intemporalidade das obras de arte, assim como "Menino Maluquinho", de 1994, outra preciosidade. Ratton tem ainda o mérito de rodar seus filmes em Belo Horizonte e outros ambientes mineiros, documentando assim vidas que não existem mais em lugares que estão acabando. "Uma onda no ar" tem uma cena na Praça da Estação absolutamente atual e emblemática da brasilidade: a cavalaria da PM reprimindo uma manifestação artística de jovens pobres e negros. São os moradores da favela (em especial, de Misael Avelino dos Santos, o idealizador da rádio), que o filme nos revela, este ambiente onde mora grande parte (a maioria?) da população da capital, mas que é oficialmente ignorado e desconhecido do restante dos moradores. Assim como a Praça da Estação tornou-se local de conflito de classes, expropriado à população pobre "barulhenta" pelas elites, num decreto do prefeito Lacerda, há dois anos, a ação seletiva da polícia contra pobres e negros continua presente no cotidiano brasileiro, como se vê no vídeo gravado na USP na semana passada e em tantas denúncias a que a internet deu voz. A web cumpre hoje o mesmo papel que a Rádio Favela pirata -- "a voz do morro" -- cumpriu com pioneirismo: garantir a liberdade de expressão para as pessoas comuns.

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