terça-feira, 29 de novembro de 2011

As donas da rua


São mais de oito e meia da noite e a obra da esquina continua a toda. Foi assim o dia inteiro: caminhão betoneira ocupando larga pista do asfalto, engarrafando o trânsito, impedindo o passeio, o barulho da betoneira sem parar, enquanto os operários fazem a laje. Ao contrário de nós outros, comuns mortais, as construtoras não têm de respeitar leis do trânsito, nem regras urbanas, como ocupação do passeio e lei do silêncio. São mesmo as donas da cidade. Pode acontecer até de a BHTrans dedicar pessoal e carros para ajudá-las a movimentar caminhões grandes de madrugada, como já aconteceu na minha rua. Curioso é que nós, que moramos aqui e que pagamos IPTU, temos de obedecer leis, enquanto elas, que apenas estão de passagem, podem tudo. Imagina se qualquer um de nós instalasse uma fábrica no passeio, a prefeitura certamente não permitiria. No entanto, é o que fazem as construtoras, montam uma indústria (da construção civil, como gosta de ser chamada) num terreno e funcionam sem qualquer constrangimento das autoridades, desobedecendo a qualquer norma de convivência urbana. Depois de dois ou três anos de transtornos para os vizinhos e de vender apartamentos por preços milionários, aumentando os problemas locais, como congestionamento de trânsito, aumento do consumo de água e de energia elétrica, aumento do volume de esgoto e de lixo, vão embora. É um ótimo negócio, só disponível para os donos da cidade. Demonstra também uma norma de comportamento que aceitamos passivamente porque é assim que funciona o capitalismo: o interesse particular se sobrepondo ao interesse coletivo, o desrespeito pelo outro, o dinheiro como valor principal.

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