sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Ciro Gomes: "Aécio lê pouco e não compreende o País. Sua hora passou"

Não dessa forma, mas foi o que o ex-ministro Ciro Gomes falou em longa e esclarecedora entrevista ao Uol. Ciro Gomes é a melhor cabeça política das últimas décadas, mas anda em más companhias, pulando de galho em galho: PDS, PMDB, PSDB, PPS -- atualmente está no PSB, o partido do prefeito Lacerda, do que se depreende, no mínimo, que é um partido contraditório. A seu favor, diga-se que cada vez que mudou de partido o fez por divergências políticas, não por privilegiar interesses pessoais oportunistas. Mas essa independência torna-o um político sem raízes e nos lembra sempre o ex-presidente Collor. A diferença é que Collor estava mais para Aécio: muito marketing e conteúdo ruim. Ciro Gomes, ao contrário, é brilhante, sabe do que está falando e, embora com polidez (já foi grosso), critica tudo e todos que precisam ser criticados. Suas entrevistas não são dessas entrevistas triviais de políticos, são sempre esclarecedoras e vale a pena lê-las.

Do Uol.
Transcrição da entrevista de Ciro Gomes à Folha e ao UOL
Folha/UOL: O sr. acha que a presidente Dilma consegue sustentar o alto nível de popularidade que ela vem obtendo ao longo do próximo ano?
Ciro Gomes: Espero que sim, vou colaborar para sim, mas não creio, porque a economia no ano que vem tende a esfriar muito.
Folha/UOL: O sr. acha que há uma crise anunciada pela frente?
Ciro Gomes: Ela tem uma crise anunciada pela frente.
Folha/UOL: De que proporção o sr. diria?
Ciro Gomes: A proporção dependerá de dois fatos muito relevantes. Um: o nível de crise econômica, o nível de centralidade que a questão econômica causará no meio social brasileiro. O outro é o comportamento do PT nas eleições municipais.
Folha/UOL: O sr. sempre foi um crítico da atuação do PT.
Ciro Gomes: Não, não. Eu sempre fui um aliado do PT.
Folha/UOL: Sim, mas crítico de certas práticas do PT.
Ciro Gomes: Agora, de um tempo para cá, o PT desertou, Fernando, das tarefas mais graves, que a sociedade... Sendo o partido mais importante do Brasil, desertou de qualquer compromisso ético. Desertou de qualquer compromisso republicano, desertou de qualquer compromisso transformador.
Folha/UOL: Mas a oposição, onde entra aí? Minha pergunta é: por que a oposição não consegue encontrar uma forma de apontar os erros?
Ciro Gomes: Tem duas oposições hoje. Uma oposição é o PSDB. A oposição PSDB não pode dizer nada porque na hora que diz qualquer coisa a turma já diz: "Mas vocês estavam lá fazendo a mesma coisa". Uma coisa impressionante, é chocante, é muito fácil desmontar o PSDB. "Ah, porque o governo está aparelhando os cargos, não sei o quê...". Espera aqui. Matarazzo. Andrea Matarazzo. Não sei quem não sei das quantas. Mendonça não sei das quantas. Estavam lá. Eram de qual partido? Vocês [PSDB] são iguaizinhos [ao PT]. É aquilo que eu estou dizendo. É o crime perfeito. E a outra oposição é o PT "revival", que é o PSOL. É o PT "revival", só consegue entender duas coisas: corporativismo e moralismo. Então é bajulação dos justos interesses dos servidores públicos, bancários etc. etc. E o moralismo. "Aí, roubalheira, esculhambação!". O Ivan Valente [do PSOL, deputado federal por São Paulo] até propôs uma CPI sobre a dívida pública brasileira, ainda tentei colaborar na minha época. Não aconteceu nada. Nada. Tudo dominado. Esse é o problema. O problema não é o escândalo das passagens que o brilhante jornalista Fernando Rodrigues denunciou com muita veemência, quase ganhou "Pulitzer" por causa disso. Esse é um problema completamente irrelevante, sendo sintoma de frouxidão moral, de fisiologia. É. Mas o problema da Câmara é o seguinte: esse Eduardo Cunha apresentou uma emenda, em uma Medida Provisória que criava um subsídio de R$ 1,6 bilhão de reais para o Minha Casa, Minha Vida, para construir um milhão de moradias, ele apresentou emenda criando um crédito de IPI exportação de R$ 80 bilhões de reais. Com os lobistas da Fiesp dentro do plenário da Câmara. Escandalosamente ali acertando as coisas, rapaz. Ninguém disse nada, Fernando. Eu fui para a tribuna. Esculhambei. Perdemos por 300 a 120 e conseguimos que o Lula, evidentemente, vetasse. Mas quase o País ia para a breca por uma emenda de um deputado.
Folha/UOL: Deixe-me perguntar do PSDB e desses três nomes que o sr. já citou do PSDB, Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves. As chances de cada um deles eventualmente vir a ser presidente. Geraldo Alckmin?
Ciro Gomes: Olha, nenhum paulista, nesta conjuntura, conseguiria ser presidente da República. Folha/UOL: Isso descartaria Serra e Alckmin.
Ciro Gomes: Por quê? Não é por nenhuma prevenção. As pessoas às vezes vêem intenções que eu não tenho. O problema é que no Brasil há falta de uma estratégia nacional, não existe um projeto nacional que faça as compensações, as mediações e que cada um se sinta partícipe de um projeto confortável. Está crescendo muito no Brasil e esse é um problema para ser discutido no Congresso Nacional. Aí está essa crise dos royalties, com o Rio de Janeiro. O Sérgio Cabral [do PMDB, governador do Rio] mobilizando 150 mil pessoas na rua. Fernanda Montenegro [atriz] indo para a rua, por uma impostura nessa discussão dos royalties. Ela está de boa fé, evidentemente. Porque não tem no País uma visão estratégica. Então o que está acontecendo? Está crescendo no país um ressentimento recíproco entre São Paulo e o resto do Brasil. As pessoas no Nordeste, em Manaus, por exemplo, não têm perigo. Porque todos os exercícios práticos da governança local, paroquial, provinciana de São Paulo hostilizam. Sejam nas oportunidades institucionais, que o Serra por exemplo, na Constituinte, cercou a Zona Franca de Manaus de restrições até ficar o sinal de que queria acabar. Desmontou o sistema de incentivos fiscais que compensariam o Nordeste das assimetrias competitivas. Briga com o Centro-Oeste e tal. Hoje, eu estou falando hoje... Porque o cara quer ser presidente da República e governava São Paulo e fazia dessas. Então essa é a questão prática.
Folha/UOL: Então isso exclui na sua opinião...
Ciro Gomes: Os dois. Os dois de São Paulo. Aí vem o Aécio. O Aécio tem uma chance. Mas o Aécio tem, na minha opinião, dois problemas.
Folha/UOL: Quais são eles?
Ciro Gomes: Um problema é ler pouco. Eu acho que isso é um problema dele. Ler pouco. O que quer dizer isso... Que ele é um extraordinário quadro, eu tenho por ele imensa afeição, respeito muito grande. Mas ele precisava compreender as coisas do País e formular. Porque não é fácil negar um projeto que trouxe 29 milhões da pobreza para a pequena classe média. Não é trivial. E não é com esse simbolismo de uma cordialidade, de um opositor cordial que ele vai afirmar uma proposta que vá derrubar essa coalizão de forças que trouxe 29 milhões de pessoas. Não é pensando, como muita gente pensa no Sudeste, que o que faz o nordestino ter simpatia com o Lula é o Bolsa Família. Não é. Sete em cada dez trabalhadores no Nordeste ganham o salário mínimo. E o salario mínimo hoje é o maior valor da história. O salario mínimo quando o Lula tomou posse, comprava menos da metade de uma cesta básica. Hoje compra três cestas básicas. Folha/UOL: Então Aécio lê pouco e o que mais?
Ciro Gomes: O outro problema é de aliança. É de aliança. Ele tem que conseguir decompor essa...
Folha/UOL: Primeiro o próprio partido dele...
Ciro Gomes: Sim. Exatamente. Essa é a grande questão. Ele tem que confrontar. Tem que confrontar. Não tem saída para ele. E a melhor hora para ele já passou. Era esta agora. Folha/UOL: Por quê?
Ciro Gomes: Porque o candidato mais fácil de ser derrotado era a Dilma.
Folha/UOL: Supondo-se que em 2014 seja o Lula [o candidato do PT à Presidência da República] ou a própria Dilma na reeleição.
Ciro Gomes: Mas aí já muito mais encorpada já. Muito mais uma obra. Muito mais legítima do que... [em 2010]. Não é? Havia um padecimento de legitimidade no dedaço que o Lula fez para indicar a Dilma [para disputar a Presidência pelo PT em 2010].
A íntegra.

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